O Doente
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Sou o pior doente do mundo e normalmente evito os médicos. Desta vez por desleixo e incúria minha, as dores atingiram um patamar insuportável e como já não dormia há quatro dias tive de consultar um médico.

Na consulta informei o médico do meu historial clinico, e lá no fim, e depois de me observar, confessou que só tinha visto um caso como o meu nos livros de medicina, pelo que fiquei logo muito mais animado, pois uma pessoa importante como eu não merecia por menos.

O cenário não era famoso, e fui informado pelo médico que corria riscos de ser internado com uma septicémia  se não fossem tomadas medidas imediatas e urgentes, e é nestas ocasiões que os Ateus como eu lembram-se que afinal pode sempre pode existir o tal ser superior em que só se acredita nos maus momentos.

Depois de um discurso inflamado por não ter ido mais cedo a um médico, e em resultado do diagnóstico, levei para casa um saco de supermercado cheio de medicamentos.

São caixas cheias de Ciprofloxacina, Flagyl, Dolocalma, Dualgan, Buscopan, Pepsamar, ApoCard e Inderal sendo ao todo 24 comprimidos por dia devidamente planificados pela paciente Cristina que até organizou tudo numa folha em Excel.

Passo o dia deitado e como já vi todos os filmes gravados, e sem poder fazer nada, o desespero e o tédio tomam conta de mim.  E como até estou impedido de fazer quaisquer esforços, ou sequer de ir para o computador, para erotizar o ambiente tentei convencer a Cristina a vestir-se de enfermeira, com toca, bata branca e ligas, mas ela recusou.

E não sei porquê, mas lembrei-me do dia em que o meu pai, temporariamente paralisado por um AVC disse-me que se a janela do quarto do hospital não tivesse grades ele tinha-se atirado de lá, ao que eu respondi a rir que isso não era possível porque ele nem conseguia andar para sequer chegar perto da janela. E desatamos os dois a rir.

Agora estou medicado e não sinto dores e o cenário melhora de dia para dia, mas quando isto tudo terminar vou a uma loja da New Amsterdam comprar um charro de Cannabis.