A Bela e o Monstro

Cristina
118

Um dia destes a Cristina confidenciou-me que eu era a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida, que era uma mulher feliz pelo marido  que tinha e que estava grata por eu ter  conseguido aturar os seus devaneios e feitio todos estes anos.

Confesso que fiquei mais preocupado do que surpreendido porque a confissão da Cristina podia significar que Deus – o tal em quem não acredito – tinha decidido que era a minha vez de partir para outro mundo. E, pelo sim pelo não,  fui ver as minhas últimas análises clinicas porque se calhar ela sabia de algo de grave que eu desconhecia. Felizmente o meu colesterol, os triglicéridos, a glicose e o PSA estavam dentro dos limites pelo que fiquei mais descansado.

A piada é que ela está redondamente enganada porque na realidade, e ao contrário do que ela pensa, sou o que se pode chamar um mau marido e um mau pai. Na verdade sou uma pessoa estupidamente racional muito perto da filosofia de Decartes e de Nietzsche. Como sou desligado de tudo não acredito nem na  paixão nem no amor  e nestas coisas das relações  sou  extremista e até considero  que chamar constantemente querido amor e fofo a alguém que se ama é algo fútil e dispensável.

Lembro-me que fartava-me de gozar quando os meus amigos ofereciam anéis, perfumes e flores às namoradas porque para mim isso era uma forma encapsulada de prostituição e até lembrava-lhes a rir que os chimpanzés fêmeas ofereciam o sexo em troca de comida.

Mas a vida tem sempre algo de caricato. Nas minhas memórias ficará para sempre aquele dia em que decidi ser igual aos outros maridos e entrei envergonhado na Intimissimi para comprar uma lingerie sexy para a Cristina.  E não demorou muito tempo para eu ficar encalacrado quando as meninas me perguntaram qual era o tamanho da copa. Copa? Das mamas? Sei lá! Ela nunca me disse. Fui gozado e trucidado pelas funcionárias mas lá no fim das gargalhadas consegui comprar um body sexy de renda branca que ela adorou.

E isto tudo para dizer que sou o pior dos maridos, pois não me lembro das datas importantes, dos aniversários do namoro, do casamento, do nascimento, e fico sempre surpreendido quando ela confirma que namoramos quatro anos, seis meses, e dois dias antes de casarmos.

E o engraçado da vida é que são esses antagonismos que nos une. Sou incapaz de lhe confessar que sou apaixonado e que acredito no amor porque simplesmente acho isso básico e muito perto do animalismo.

E com todas estas disparidades  já lá vão 30 anos, ela continuamente sentimental e eu convictamente bronco.