Eternamente Selvagens

Ilhas Selvagens
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Sou dos poucos portugueses que teve o privilégio de visitar as Ilhas Selvagens e o que parecia ser apenas mais uma missão para a instalação de uma micro central fotovoltaica no Parque Natural da Madeira resultou numa experiencia para a vida. Já fiz varias visitas às Ilhas Selvagens mas a que mais me marcou foi em 2001 quando fiz parte de uma equipa do LREC liderada pelo Eng. Carlos Magro. O Objetivo da missão do Departamento de Hidráulica era substituir a central fotovoltaica obsoleta na Selvagem Grande por uma com potência e tecnologia mais eficiente para garantir o mínimo de comodidade na casa de abrigo do Parque.

Partimos pela 18H00 a bordo de um Patrulha de rio que não me inspirava confiança por ser demasiado pequeno para os 300Km que nos separavam das Ilhas mais a Sul do Arquipélago da Madeira. Seriam 23 dias isolado numas ilhas que não conhecia mas a curiosidade era maior que o medo pelo desconhecido.

Bem recebidos pela Marinha partimos a horas e jantamos na pequena cozinha do Patrulha. A noite caiu, as cartas e umas cervejas permitiram-nos passar as primeiras horas de uma viagem que, se tudo corresse bem, duraria apenas 12 horas com a chegada prevista pelas 6 da manhã.

Estava previsto Sudoeste e quando passamos a área de influencia da Madeira, o mar começou a ficar encrespado com alguma ondulação. Os dois metros da ondulação não assustavam, mas quando o comandante mandou fechar o navio, olhamos uns para os outros. Tanto o  Magro, o Faria, o Fernando e o Jaques já eram experientes naquele tipo de viagens mas eu fiquei algo apreensivo porque o Navio já dava saltos de metros e o mar já passava por cima do convés como se fosse um submarino.

Fazia parte da praxe levar os novatos até à Casa das Máquinas onde o calor, a ondulação e o cheiro a gasóleo causava enjoos no mais comum dos mortais. Por isso não foi nada estranho ter sido convidado por um oficial a visitar a Casa das Máquinas mas  aguentei-me o que originou algum respeito.

Não foi fácil adormecer num saco cama estendido na cozinha, mas o cansaço ajudou e lá pelas sete da manhã acordei com a azáfama da cozinha. Levantei-me e, como o navio continuava selado, fui até um dos WC mas não consegui entrar porque estava cheio de vómitos. Ri-me porque os vómitos não me faziam impressão mas a única opção era aguentar e urinar no convés para o mar. Felizmente a aproximação às ilhas já me permitia aguentar e sair para o convés em segurança.

Observar pela primeira vez as famosas jangadas de cagarras sobre o mar com o sol a surgir no horizonte era algo novo para alguém que passa a vida atrás de um teclado de computador e perdi-me no tempo deslumbrado com a paisagem. A ilha não passava de um rochedo frio e escuro e até me provocou alguma desilusão. O Patrulha só ficava algumas horas e regressava ao Funchal pelo que descarregar todo o material que levávamos para o bote era uma operação calculada ao minuto.

Já em terra mudamos de equipa, os que lá estavam regressavam ao Funchal e os que vieram connosco iriam ficar os 23 dias, até que o Patrulha regressasse para nos levar de volta. Como na altura fumava acendi um cigarro e enquanto inspirava a nicotina observava o barulho ensurdecedor das seis mil aves que nos sobrevoavam. Quando me preparava para deitar a beata fora, um dos elementos do Parque Natural avisou-me que ali não se deitava beatas no chão, guardava-se no bolso. E foi a minha primeira lição sobre Reservas Naturais.

A instalação da Central Fotovoltaica correu melhor que o planeado e em poucos dias já tínhamos a instalação concluída e a funcionar. Como havia trabalhos a efetuar na Casa  ajudamos naquilo que sabíamos mas a maior parte do tempo visitávamos o resto da ilha aprendendo mais em poucos dias que anos nos livros. As tarefas eram partilhadas e aprendi que o lava-louças tinha duas torneiras, uma de água salgada e outra de água doce. Lavávamos os pratos na água salgada e depois passávamos pela água doce, sem contar que os banhos  eram todos cronometrados.

A meio da estadia faltou-me os cigarros e como a Tabacaria mais perto era em Tenerife tive de me contentar em  inventar uns charutos a partir das folhas secas de um infestante de nome Tabaqueira, que só fazia fumo.

Em 2001 as Selvagens não tinham comunicações, além de uma TV de Satélite e um pequeno radio de onda curta onde para falar com um familiar era sempre a horas marcadas e por pouco tempo.

A sorte é que, como radioamador, fui autorizado a levar um radio e uma pequena antena de fio de cobre e, à noite, entretinha-me em fazer alguns contactos com o mundo. Mesmo com o pouco tempo disponível, lembro-me que fiz cerca de 700 contactos. Foi assim que passei o resto das noites na Selvagem Grande, entre o rádio, os jogos de cartas e as anedotas de uma equipa fabulosa. Uma bela manhã deram-me um saco e pediram-me para ir apanhar limões no norte da Ilha, mas o azar deles é que eu já conhecia a brincadeira.

Os vinte e três dias passaram depressa e no regresso tínhamos como objetivo parar na Selvagem Pequena e montar um contentor para abrigo dos Vigilantes da Natureza que estavam para chegar. Para que se perceba, no Verão o Parque Natural da Madeira tinha vigilantes na Selvagem Pequena mas no inverno desmantelava-se o contentor e enterrava-se na areia, ficando a ilha sem ninguém.

Se a Selvagem Grande era apenas um rochedo sombrio, a Selvagem Pequena parecia um pequeno paraíso com as suas praias de areia branca estando o seu ponto mais elevado apenas a 40m do nível do mar. O pior de tudo é que era preciso andar com cuidado devido aos inúmeros ninhos e por isso usávamos um trilho comum em fila indiana para não danificar qualquer ninho. Nesse dia fiquei convencido que na Selvagem Pequena o ser humano podia ser o pior dos predadores por isso tudo devia ser feito para evitar a sua presença.

Na altura achei tudo aquilo muito bizarro e estranho e questionei os presentes porque não se instalava camaras de video alimentadas com painéis solares que permitiriam vigiar todo o espaço remotamente a partir da Selvagem Grande com a vantagem de não se perturbar o meio ambiente. Olharam todos para mim como se tivesse dito a maior barbaridade do mundo e por isso remeti-me ao silêncio porque há ideias que não se deve ter.

Regressei ao Funchal mais feliz com tudo aquilo que tinha vivido e aprendido. O tempo passou e vinte anos depois, quando soube que a Polícia Marítima tinha instalado uma camara de vigilância na Selvagem Pequena,  esbocei um sorriso.