Palhaços do circo sem nexo
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Em pequeno costumava ir com os meus pais ao Circo no Parque Almirante Reis. Um dia, o meu pai conseguiu arranjar bilhetes para a plateia, mesmo a escassos metros da arena. Nesse dia chegamos cedo e lembro-me de andar nos carrinhos de choque e de comer algodão-doce. O algodão-doce fascinava-me porque não percebia como é que é o algodão nascia do nada à volta de um palito de madeira.

Pelas nove e meia entramos no Circo e a minha excitação e nervosismo aumentavam. Daquela vez, além dos divertidos palhaços, tinha leões e prometia ser uma grande noite.

E não foi preciso esperar muito para o maior espetáculo do mundo começar. A voz cavernosa do apresentador com sotaque espanhol e a música de fanfarra entusiasmava a plateia que regozijava e aplaudia os anúncios dos artistas com nomes estrangeiros.

Primeiro foram os corajosos trapezistas que voavam lá no alto de um lado para outro sem rede, enquanto eu escondia a cara. Depois veio o mágico fantástico que com a sua varinha mágica fez desaparecer uma senhora bonita de uma caixa negra. E finalmente anunciaram os Leões levando a plateia ao rubro. Lembro-me que nunca estive tão perto das grades das jaulas, e foi com um misto de medo e fascínio que vi as leoas e o Rei da Selva entrarem na arena. Sentia-me seguro junto dos meus pais, mas agarrei-me à minha mãe.

O treinador brandia um chicote estridente enquanto os leões saltavam obedientes por um anel de fogo, e o espetáculo dos leões terminou com o corajoso treinador a meter a cabeça dentro da boca do leão, que não vi, porque fechei  os olhos e só abri com as palmas da plateia.

E de repente, enquanto desmantelavam as jaulas, o apresentador anunciou os palhaços levando toda a plateia à loucura. Lembro-me de haver três palhaços, um bom e inteligente – que era o rico – e dois maltrapilhos de nariz vermelho que faziam rir a plateia com as suas maluquices. Toda a gente estava divertida enquanto os palhaços andavam à volta da arena batendo palmas.

De repente um deles parou à minha frente, olhou-me fixamente, e aproximou-se de mim com um balão na mão. Tinha a cara suada, uns olhos de mau, e deu uma gargalhada estridente. De repente entrei em pânico, e desatei a chorar, enquanto os meus pais riam-se.

Isto tudo foi há mais de cinquenta anos, mas lembro-me que a partir desse dia deixei de gostar de palhaços.

O tempo passou, entretanto cresci, envelheci, e aprendi que os palhaços não se ficam pelo circo.