O querido Você
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O meu avô Leopoldino tratava a minha avó  por você, e a minha avó tratava-o por senhor. Em miúdo sempre achei estranho e nunca cheguei a perceber se era para manter as distâncias ou se era por ser uma característica própria dos casamentos antigos.

Tudo isto a propósito de no outro dia na praia ter escutado uma conversa entre um jovem casal lisboeta, possivelmente em lua de mel. O jovem tratava a namorada por amor, e ela retribuía-lhe por fofo mas sempre na terceira pessoa.

O casal desfazia-se em mimos, e pelo desenrolar da conversa percebi que ele deve constantemente surpreende-la com flores e que ela lhe retribui com lingerie provocante em noites escaldantes, e sempre por você, mesmo nos momentos mais íntimos.

E foi assim que concluí que aquilo era um casamento para durar uns meses, e que possivelmente iria acabar em porrada e nos tribunais.

Deitado na toalha, e sem nunca ter entendido os seus nomes próprios, fechei os olhos para o sol e ri-me porque sei que a Cristina trata-me por tu e que apenas chama-me fofo quando quer uma mala ou um par de sapatos novos.

E sem o querido você, já lá vão 26 anos de casamento a tratar-nos por tu a meio de malas e sapatos.