A Homofobia
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O meu pai era homofóbico e para ele os homossexuais não eram pessoas normais e tratava-os como seres  inferiores e desprezíveis. E antes que alguém fique chocado pela barbaridade daquilo que acabei de escrever convém explicar que o meu pai pertencia a uma geração de pessoas de bem, honestas, mas básicas e incultas.

Ele nasceu em 1928 numa pequena freguesia do norte da Ilha da Madeira onde o homossexualismo era considerado uma doença psiquiátrica e onde a lei do mais forte definia os homens de barba rija. Segundo ele, na sua juventude era raro o dia em que não havia cenas de pancadaria e sangue, e segundo o que ele me contou, na altura até se incentivava a luta entre irmãos, primos e vizinhos, como forma de manter a prevalência do macho mais forte.

Entretanto por necessidade de sobrevivência aos 14 anos veio  trabalhar para o Funchal como paquete. Segundo consta, levou uma vida leviana de copos e mulheres, até que, aos 26 anos casou, e dois anos depois nasci. Na minha puberdade nunca me esqueci de uma conversa sobre sexo e mulheres em que ele disse-me perentoriamente que preferia que eu fosse ladrão a homossexual.

Para vaidade dele, não sou nem uma coisa nem outra,  entretanto casei, e vinte anos passaram.

Um dia, e devido a uma queda e ao Parkinson, a minha mãe foi internada no Hospital João de Almada em estado vegetativo. Em consequência disso, todos os dias depois do trabalho, eu apanhava o meu pai em casa e visitávamos a minha mãe.

Com 82 anos o cérebro dele já não era o que era, e já apresentava alguns indícios de Alzheimer. Um belo dia, numa das visitas à minha mãe, fomos encontrar um senhor enfermeiro   junto à cama da minha mãe  a alimenta-la com uma sonda, exibindo  alguns gestos afeminados enquanto encetava um monólogo com ela.

E quando eu pensava que a vida já tinha-lhe ensinado tudo, o meu pai virou-se para o enfermeiro com um ar de desprezo e perguntou-lhe “olha querida como é que conseguiste tirar o curso de enfermeiro?”

Durante alguns minutos eu nem sabia onde me meter e o que dizer. A reação mais sensata foi pedir imediatamente desculpas ao Sr. enfermeiro que sorriu e respondeu que já tinha ouvido pior.

Ao sair briguei com o meu pai, ao que ele respondeu irritado “não viste que ele era maricas?”

O meu pai  morreu aos 86 anos, e o que  eu nunca lhe disse é que o homossexualismo foi retirado da lista de doenças psiquiátricas da OMS em 1990, mas que a homofobia, por ser uma fobia, continua a fazer parte dessa lista.