A origem do nome de família
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Algumas pessoas conhecem-me por Carlos Neves mas ninguém  me conhece por Carlos Maltez. Para que se saiba, Maltez é o apelido dos meus avós paternos, dos meus tios, e dos meus primos.  E para que conste, e durante algum tempo, a Cristina insistiu que alterássemos no registo o apelido de família de Neves para Maltez para, segundo ela, perpetuar o nome da família.

E o que parece ser muito estranho e caricato, é facilmente explicável.

O meu avô paterno, que nunca cheguei a conhecer,  morreu em 1959 e  chamava-se Manuel Francisco Maltez. Segundo os registos, casou-se em 1926 com a minha avó, que se chamava Rosa Pereira Maltez, e eram agricultores que viviam da terra na freguesia da Fajã da Ovelha, no Concelho da Calheta.

A história da troca de apelidos conta-se em poucas palavras. Numa bela tarde de domingo do dia 5 de agosto de 1928, a minha avó Rosa  grávida de 40 semanas decidiu ir à festa de nossa Senhora das Neves com o meu avô. Naquele tempo, os dois quilómetros do trajeto entre a humilde casa em que viviam e o adro da Igreja onde era a festa religiosa era efetuado a pé, e o que ninguém esperava, ou sequer imaginava, aconteceu.

O meu pai nasceu naquele dia de festa a meio de um ribeiro, num parto assistido pelo meu avô.

Na altura do registo e do batismo, o Sr. Padre da Paróquia de São João Batista na Fajã da Ovelha decidiu que o nascimento do meu pai tinha sido um milagre, e com todos os poderes celestiais de que foi investido alterou o apelido de família do meu pai de Maltez para Neves em honra de nossa Senhora das Neves.

E assim, ou por erro do acaso ou por milagre, e tal como o Genesis, Augusto Francisco Neves foi o primeiro da geração dos Neves.

Segundo o pouco que o meu pai me contou, o meu avô Manuel era um homem alto e de descendência espanhola, e a minha avó Rosa era baixinha e brasileira. Na Fajã de Ovelha eram conhecidos como os “Filipes”, e o meu pai estava convencido que o termo seria uma alusão ao facto de serem espanhóis fugitivos da Guerra Civil Espanhola.

Mas se a história da alteração do apelido até tem a sua piada, o que se segue, é inacreditável.

Decidi investigar a origem do apelido Maltez e descobri com alguma estupefação que o meu bisavô, pai do meu avô Manuel chamava-se Filipe Francisco, a mãe Victorina Fernandes,  eram nascidos na Fajã de Ovelha, e nenhum deles tinha o apelido Maltez no nome.

A teoria do meu pai de sermos descendentes dos  “filipes espanhóis” deixava de fazer sentido, e até porque era normal naqueles tempos referir-se a toda a família pelo nome do patriarca, e os “filipes”  seriam apenas os descendentes do meu bisavô Filipe.

Ainda havia a hipótese do apelido Maltez vir da minha avó Rosa Pereira, que tinha nascido em São Simão, no Estado de São Paulo no Brasil,  mas veio a constatar-se que era filha de Manuel Gonçalves e de Rosa Pereira, nativos da Fajã da Ovelha emigrados no Brasil.

Pelo que sabemos dos registos, Filipe Francisco e Victorina Fernandes casaram-se em 1894 e tiveram dois filhos, que foram registados como Maria Fernandes e Manuel Francisco, isto é, sem o apelido Maltez.

E para tornar esta história dos apelidos ainda mais incrível, os pais de Filipe Francisco chamavam-se Manuel Correa e Josepha Maria Jacintha, e os pais da minha bisavó Victorina Fernandes chamavam-se Victorino Correia e Maria Augusta de Coito e segundo consta eram todos nativos da Fajã da Ovelha, e nenhum deles tinha o apelido Maltez.

Toda esta história é, no mínimo, intrigante e o porquê do apelido Maltez aparecer no nome do meu avô Manuel Francisco  quando adulto permanece ainda um mistério.  A hipótese mais plausível é  que o nome Maltez possa ter surgido como uma alcunha que era dada pelos residentes às pessoas que  trabalhavam temporariamente fora da sua terra, e provavelmente o facto da família de  Rosa Pereira ser emigrante no Brasil possa ter contribuído para essa alcunha que depois  se converteu em apelido de família, ou seja,  Maltez nunca foi o nome de família.

Moral da história. Depois desta confusão toda, a questão agora é saber qual é o apelido para perpetuar a família. Neves, Maltez, Francisco, ou Correa?

A origem do nome de família