Uma tempestade num copo de água

Tempestade num copo de água
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A morte de George Floyd despertou o fantasma do racismo e da violência policial movimentando multidões contra tudo o que existe. Curiosamente, e colocando-nos do outro lado da multidão, não vimos nenhuma manifestação contra os criminosos que assassinaram um jovem estudante no Campo Grande em  2019. Para que se saiba, nessa história de crime e horror – e apenas por simples coincidência – o pai do jovem era inspetor da Policia Judiciária, e os criminosos eram de raça negra.

O tempo passou, e de repente, e como não havia outra coisa para fazer, alguém se lembrou de chamar incitamento à violência  a um simples cartaz empunhado por um miúdo que dizia “polícia bom é polícia morto”. É fácil de perceber que esse miúdo tem todo o ar de não saber bem o que está  ali a fazer,   pois até é capaz de jurar que o Super Homem é o jornalista Clark Kent, que o Zorro é o Antonio Banderas, e que a única coisa que o move  verdadeiramente é uma paixão platónica pela Bárbara Bandeira.

Estou convicto que a maioria dos profissionais da polícia ignorou o cartaz  porque todos eles no seu dia-a-dia da luta contra o banditismo de certeza que já encontraram pior, muito pior. E já agora, quantos de nós – por breves momentos – não odiamos um polícia porque nos autuou por uma transgressãozinha de trânsito?

Se pensarmos bem, pior mesmo foram os cartazes que surgiram depois, como aquele do “comunista bom é comunista morto” ou o do “benfiquista bom é benfiquista morto”, esses sim já escritos por adultos responsáveis. E não é preciso recuar muitos anos para nos lembrarmos de um político madeirense que disse uma vez que  “cubano bom é cubano morto” referindo-se na generalidade a cidadãos do continente português.

E que dizer dos tempos de abril de 1974, em que no calor da revolução se incitava à morte de outros portugueses com frases “fascista bom é fascista morto”?

E correndo o risco de ser mais radical e incompreendido, a famosa frase “bandido bom é bandido morto”  proferida em tanto lado não é também incitamento à violência?

Ao longo da História, a juventude sempre foi irreverente, e sempre será irreverente, e se calhar, daqui a uns anos, o miúdo do cartaz  vai olhar para trás e vai-se rir pela idiotice do seu minuto de fama.

Tudo isto é nitidamente um exagero criado pelos media e pelas redes sociais, e por isso estou convencido que estamos todos a fazer uma tempestade num copo de água.

Polícia bom é polícia morto!