Advogados
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Os advogados são os únicos profissionais que conheço que conseguem falar sem pensar. E antes que a Ordem dos Advogados, ou alguém com problemas de suscetibilidade, me processe por inúmeros crimes, passo a explicar.

Não sou neurologista, mas sei que no cérebro a capacidade de calcular números é independente do reconhecimento dos sinais das operações em si, ou seja, as contas com muitos números são independentes das operações aritméticas. Resumindo, o nosso cérebro é capaz de processar cálculos aritméticos em paralelo e assincronamente, ou seja, algo muito similar com a técnica de programação de computadores conhecida como multithreading.

Por exemplo, no nosso cérebro uma simples operação da soma de duas multiplicações como 8×5+9×4, é efetuada em simultâneo, isto é, enquanto estamos a usar o cérebro para escrever a fórmula num papel, uma parte do nosso cérebro já está a calcular as parcelas em  multithreading  permitindo obter resultados mais rapidamente.

E por isso estou convicto que existem pessoas que, com uma boa memória, uma boa dicção e muito treino, conseguem executar numa Thread um diálogo apaixonante sobre meteorologia  enquanto processam noutra Thread independente uma dedução matemática complexa.

É muito comum ouvir um bom advogado despejar em modo automático uma data de Decretos-Lei, nomear artigos e alíneas  ao calhas  apenas para ganhar tempo e distrair o seu adversário, quando na verdade já está a pensar na resposta correta sobre um determinado assunto. Esta habilidade de demonstrar no diálogo uma tese utilizando a argumentação passou a ser uma arte conhecida por dialética, e faz do advogado um dos profissionais mais bem preparados para a política.

Mas a  excelente dialética  dos advogados na política tem o seu reverso da medalha e não é por acaso que numa sondagem recente sobre as profissões em que os portugueses mais confiam, os advogados e os políticos foram colocados no fim de uma lista liderada por Bombeiros e Médicos.