A Radio Pirata e o Cometa Halley

Numa das últimas limpezas da cangalhada eletrónica acumulada ao longo da minha vida de invenções encontrei, num caixote perdido, uma pequena caixa de alumínio com uma ficha SO239 encastrada. Como não tinha qualquer identificação, e como já não me lembrava o que era aquilo, abri a caixa e, após uma breve inspeção, esbocei um sorriso.
Aquele amontoado arcaico de fios, soldados num PCB desenhado à mão e corroído com Percloreto de Ferro trouxe-me recordações esquecidas de uma juventude de tecnologia rebelde. Afinal aquela caixa não era, nem mais nem menos, que um emissor de FM (87.5 a 108.0 MHz) que construi há mais de 45 anos. Depois de reconhecer o transístor NPN de 2.5W do andar final, encontrei o famoso CI que gerava os 19KHz. Sei que fiz várias versões, mas para quem não está dentro do assunto, os 19KHz era um tone inaudível que era emitido junto com a emissão do áudio e acendia o LED stereo nos recetores de FM (gerando mais ruido que música 🙂 ). O truque tecnológico levou a que muitos nem se tivessem apercebido que a emissão não era em stereo.
Ainda a sorrir, à memória vieram-me os tempos loucos de uma juventude irreverente, nomeadamente do início das emissões piratas da radio FM na Madeira. Do pouco que me lembro, recordo-me que as emissões eram efetuadas à noite a partir de uma viatura que mudava de local constantemente para não ser apanhada pelos temíveis Serviços Radio Elétricos (agora ANACOM).
A emissora pirata era constituída por um emissor de 2.5W, uma mesa de mistura, um gravador de cassetes e um microfone, tudo ligado ao isqueiro do carro. O local predileto das emissões era o miradouro do Caminho dos Pretos, um local que permitia à Radio Pirata chegar forte a todo o Funchal, dificultando assim a sua localização, por qualquer triangulação do sinal efetuado pelos Serviços Radio Elétricos.
Por questões de segurança mudávamos aleatoriamente de local e nunca me vou esquecer do dia em que, no Sitio das Neves, no meio da escuridão, amarramos a antena a um poste metálico que, por sorte, encontramos a escassos metros da viatura estacionada.
Lembro-me que já passava das 22H00 e a emissão já durava há longos minutos quando vimos as luzes de um carro a surgir ao longe. Como o medo protege os audazes, imediatamente suspendemos a emissão e escondemo-nos nos bancos da viatura.
O carro aproximou-se e parou mesmo ao lado! Naquele momento pensamos que tinhamos sido apanhados e que iamos ser presos! Ainda amedrontados levantamos a cabeça e verificamos que afinal o temido JEEP dos SRE era um autocarro de onde saíam passageiros. Estupefactos olhamos uns para os outros sem perceber nada. Quando o autocarro partiu, saímos do carro e depois de um silêncio ensurdecedor, desatamos a rir quando olhamos para o poste e descobrimos que na escuridão tínhamos amarrado a antena ao poste uma Paragem de Autocarros cuja sinalética tinha caido.
Mas as histórias hilariantes da Radio Pirata não terminaram naquela Paragem de Autocarro. Recordo-me ainda do dia em que, para controlarmos a qualidade da emissão, tínhamos combinado um código com alguns ouvintes. Os ouvintes escolhidos eram, por acaso, radioamadores que numa frequência combinada (na altura não havia telemóveis) comunicavam se “estavam a ver o Cometa Halley”. Depois de algumas mensagens “codificadas” de incentivo em que todos tinham “visto o Cometa Halley muito bem”, um radioamador – que estava a escutar a conversa mas que não tinha nada a ver com o assunto – reportou que estava há mais de uma hora no terraço da sua casa com os binóculos a olhar para o céu mas que não conseguia ver o Cometa.
Mesmo em direto não aguentamos o exigido semblante sério do tema “Another Brick in the Wall” dos Pink Floyd e esmorecidos a rir desligamos a emissão . Foi o início do fim da primeira radio pirata FM da Madeira.
Não seria justo terminar este texto sem uma palavra de apreço para a Radio Solmar, a primeira Radio FM Pirata a sério do Funchal, que surgiu uns anos depois e muito antes da legalização das Radio Locais.
PS: Embora o eventual crime já esteja prescrito, por questões de hombridade e sigilo optei por não identificar nenhum dos outros elementos que participaram comigo nesta odisseia.