O criminoso

84
3

As memórias que nos ficam marcadas para a vida são sempre as más, e por isso nunca me irei esquecer desta história.

Em miúdo ia muitas vezes com o meu pai a uma Barraca que havia junto à Igreja de São Paulo na Rua da Carreira comprar verduras, e só quando não havia o que ele queria, íamos os dois ao Mercado dos Lavradores. Eu admirava-o porque ele era muito forte, durante a maior parte do caminho levava-me ao colo e só no fim da Fernão de Ornelas é que me colocava no chão.

Das minhas memórias de infância do Mercado dos Lavradores, lembro-me de comprarmos galinhas, que eram mortas  na hora e depois depenadas por uma espécie de lixa elétrica. Entre o horror do morticínio e a tecnologia, ficava lá eu estupefacto a assistir à carnificina das galinhas.

Um belo dia no Mercado dos Lavradores, enquanto o meu pai, que era Nacionalista ferrenho, estava entretido a discutir futebol com o vendedor, aproveitei para tirar três vaginhas do cesto da barraca e meter no bolso das minhas calças (para quem não sabe, vaginha é o termo madeirense para a vagem ainda tenra do feijão, mais conhecida em Portugal por feijão-verde). Depois de comprar as couves e as cenouras, saímos os dois do Mercado. Dum lado,  num saco, as verduras, do outro ia eu com um sorriso na cara.

Depois de sair do Mercado tirei as três vaginhas do bolso – e orgulhoso do feito – mostrei-as ao meu pai. De repente, e sem anúncio prévio, levei uma estalada na cara acompanhada por uns gritos de raiva. Nunca tinha visto o meu pai tão mau.

A chorar, o meu pai arrastou-me pelo braço até à Barraca do Mercado para  devolver o que eu tinha roubado. Depois de me obrigar a  pedir desculpas, o  vendedor riu-se, afagou-me a cabeça e  entregou-me uma mão cheia de vaginhas, dizendo que o meu castigo por ter roubado era ter de comer todas as vaginhas numa sopa ao jantar.

Fui a chorar todo o caminho de volta e quando cheguei a casa o meu pai contou a história à minha mãe. Lembro-me que ela ficou escandalizada e disse-me logo que , se eu roubasse mais alguma coisa, podia ser preso pela polícia para o resto da vida. Chorei a tarde toda e aprendi a lição.

No fim até tive sorte porque eles esqueceram-se da sopa e o jantar foi arroz com ovo, o meu prato preferido. Afinal parece que o crime compensa!