Os traficantes(*)
Quando se tem 22 anos julgamos que somos imortais e que podemos fazer o que nos apetece. Esta história tem mais 40 anos e aconteceu nos meus tempos de estudante de engenharia no IST. Fui estudar para Lisboa com uma Bolsa de Estudo que ajudava os meus pais a me pagarem um quarto, os livros e a minha alimentação nas cantinas das Universidades, sobrando muito pouco para as loucuras.
Quem sai de uma ilha rodeada pelo mar deslumbra-se com a imensidão de Lisboa onde a Europa fica perto de tudo. Infelizmente para trás ficaram alguns dos meus amigos de liceu a quem eu chamava de “triloucos” que, lá de vez em quando, se lembravam de mim e arranjavam desculpas para me visitar.
Como eu só ia à Madeira duas vezes por ano, no Verão e no Natal, quando nem lembra ao Diabo, lá apareciam eles, para uma jornada de loucura. Desta vez o objetivo era ir passar dois dias de copos em Málaga.
Na sexta-feira combinada os “triloucos” chegaram a Lisboa e alugaram um carro. O objetivo era descermos até ao Algarve, atravessar a fronteira e ir até Algeciras onde apanharíamos um Ferry para Ceuta às 7H00 da manha. O primeiro choque ao chegar a Algeciras foi descobrir que o pequeno aeroporto de Gibraltar era atravessado por uma avenida que tinha semáforos para permitir que os aviões aterrassem.
Nenhum deles tinha estado em Ceuta pelo que a curiosidade de todos eles era incontrolável. Depois de almoçar e visitar duas ruas de Ceuta voltamos no mesmo dia para Algeciras. Chegados à alfândega espanhola foi percetível o sorriso dos polícias espanhóis quando viram cinco jovens idiotas portugueses com um ar de traficantes de haxixe pelo que fomos todos revistados.
Felizmente foi com um ar desolado que a Polícia Espanhola deixou-nos seguir porque não encontraram nada de ilícito. O que a Polícia espanhola não sabia é que tínhamos ido a Ceuta apenas para comprar blusões de cabedal a 2 contos para depois vender a 20 em Portugal e com isso pagar a nossa viagem a Málaga. O espanto é que, mesmo com 27ºC de temperatura, cada um de nós trazia vestido um blusão e outro na mochila.
Partimos para Málaga onde tínhamos alugado um apartamento por dois dias e logo na primeira noite fomos à maior e mais famosa discoteca de Málaga onde ficou combinado que, quando as espanholas nos perguntassem se eramos portugueses, dizíamos que eramos de “isla Madera” o que, verdade seja dita, provocou alguma empatia junto das espanholas.
Diga-se que fomos bem recebidos e foi com um grande um ar estupefacto que alguns dos “triloucos” verificaram que a discoteca era muito maior que a Barbarella. O tempo passou mas o choque de ouvir os últimos “Hits” traduzidos para espanhol provocou-nos muitas gargalhadas e gozo. Sentamo-nos a um canto enquanto um dos “triloucos” – conhecido pela sua paixão por carros – já dançava na pista no meio de algumas espanholas e não foi preciso esperar muito tempo para vê-lo a dançar um “slow” agarrado à Lucia.
Escarrapachados nuns pufes assistíamos ao gozo do momento enquanto saboreávamos a cerveja e foi com um sorriso de felicidade que o “trilouco” veio ter connosco enquanto a Lucia ia à casa de banho. Visivelmente feliz chegou ao pé de nós em êxtase porque tinha encontrado a mulher da vida dele “…ela é mecânica de automóveis!”. Naquela altura não conhecíamos nenhuma mulher mecânica de automóveis pelo que um dos “triloucos” perguntou com um ar incrédulo como é que ele sabia. Espantado respondeu “ela disse-me que trabalhava numa oficina”. Um dos “triloucos fez um ar perplexo, cuspiu a cerveja pelo nariz e a rir exclamou “Ahhh…sua abrótea, oficina em português é escritório! Ela trabalha num escritório com papeis!”.
Não é preciso adivinhar que passamos o resto do fim-de-semana e alguns anos a rir com o episódio.