Agradecimento

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A Cristina não queria que eu escrevesse sobre este assunto, mas como faço sempre aquilo que ela não quer – e por ser uma questão moral e até de justiça divina – decidi expor o que me vai na alma sobre um episódio que nos mostrou o quão vil, baixo e mesquinho é o ser humano.

Há uns vinte  anos atrás, a Cristina exerceu toda a sua influência para arranjar emprego a um casal imigrante que, com dois filhos pequenos, passava algumas dificuldades. Para quem conhece a Cristina, sabe que ela não larga o osso facilmente e foi, de uma forma insistente e quase contundente, que junto de um dos fornecedores da empresa onde trabalhava, conseguiu entrevistas de emprego para os dois.

Diga-se que o facto de ambos não falarem bem o português correto era um empecilho ao sucesso da entrevista. Alegadamente por esse motivo e, por outros relacionados com competências profissionais, a entrevista não correu bem a nenhum deles e consequentemente obteve a discordância do responsável da empresa. Que fique claro que, na altura, um dos administradores comunicou à Cristina que o candidato não mostrou qualquer interesse à vaga existente à qual se tinha candidatado mas que por insistência da Cristina foi aceite. Posteriormente, ao fim de alguns anos, ele saiu da empresa para continuar os estudos tendo novamente a  Cristina intercedido junto da Administração para que ele fosse substituído pela esposa.

A empresa alegou logo que o cargo vago deveria ser ocupado por um individuo de sexo masculino, mas, para quem conhece a Cristina, sabe que ela não aceitou a resposta androcentrista do Administrador e foi com a insistência nata que se lhe reconhece, que persistiu junto dele para que lhes fosse dado uma oportunidade para ela mostrar o que valia num cargo ocupado maioritariamente por homens. Que fique assim claro que foi graças à Cristina que ela conseguiu o emprego!

Entretanto o tempo passou e a empresa onde a Cristina trabalhava faliu por motivos conjunturais que lhe foram alheios.

Todos nós já percebemos que com 45 anos não é fácil arranjar emprego. Entre poucas outras oportunidades, a Cristina conseguiu há uns anos atrás candidatar-se a uma vaga de emprego administrativo, por ironia do destino na mesma empresa onde, há vinte anos atrás, tinha conseguido arranjar os empregos para o tal casal.

A entrevista correu bem mas inesperadamente a empresa comunicou a sua não contratação afirmando que não tinha idade nem o perfil certo para as funções exigidas, o que a deixou triste e cheia de dúvidas sobre as suas competências.

Infelizmente tudo se sabe numa terra pequena como a nossa e foi assim que se descobriu que, a mesma pessoa – a quem ela outrora deu uma oportunidade de trabalho – usou toda a sua influência junto do  responsável na Madeira referindo-se que a Cristina, entre muitas outras depreciações, era “uma incompetente que não sabia fazer nada”.

O pior desta história repugnante é que ficou-se sem se perceber se esta reação foi causada apenas por pura maldade ou por medo de uma eventual concorrência profissional futura. De qualquer modo, vindo de uma pessoa a quem ela ajudou no passado, foi difícil à Cristina aceitar e esquecer este episódio. A única conclusão que se tira desta atitude rasca e execrável é que, quanto mais se conhece a raça humana, mais se gosta dos animais.

Muito recentemente e graças a  uma nova oportunidade de emprego, vinda de pessoas que ela nem conhecia, a Cristina ganhou outra vez prestígio profissional e voltou a ser uma mulher feliz. Dois anos depois – a tal incompetente que não sabia fazer nada – foi convidada para a Direção sentindo-se hoje uma mulher realizada e feliz.

Obrigado aos que acreditaram nela!