Adultério
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O que nunca podia ter acontecido aconteceu! Depois de trinta e cinco anos de casamento e quarenta de paixão, descobri que a Cristina anda a trair-me com outro gajo.

Antes de tudo devo confessar que nunca fui flor que se cheire. A minha vida divide-se em dois grandes períodos: AC (Antes da Cristina) e DC (Depois da Cristina). Antes de conhecer a Cristina levava uma vida de folia, álcool e sexo. Na minha vida de estudante em Lisboa, as mulheres eram para mim seres desprezíveis e inferiores. Na altura tinha um grupo de amigos, cujo divertimento era engatar mulheres nos famosos convívios das Universidades. A loucura era tanta que os convívios até incluam apostas sobre qual de nós engatava mais  “gajas” e não era por acaso que escolhíamos os das faculdades de Veterinária e Farmácia porque eram os que tinham mais mulheres. Na verdade o álcool tornava as conversas de engate mais profícuas e por isso não eram raras as noites em que não conseguíamos um novo trofeu. Quando tudo corria mal acabávamos a noite nos bares do Cais do Sodré.

Depois de conhecer a Cristina a minha vida mudou. Deixei os loucos, converti-me à monogamia e acabei por casar. Descobri assim  que afinal a paixão e a felicidade são únicas na vida. Sem dúvida que ela meteu-me juízo na cabeça e não é por acaso  que o meu casamento é considerado um exemplo único  e elogiado por muito dos meus amigos, quer pela empatia, quer pela cumplicidade entre nós os dois.

Infelizmente nada é eterno e comecei a aperceber-me que, de há uns tempos para cá, a Cristina mudou. Ela – que me considerava uma mente brilhante – já não me fazia perguntas sobre o que quer que seja e o pior estava para vir quando um dia destes em conversa comigo ela afirmou convictamente que o problema do motor que tenho no meu velho AUDI deve ter origem no  Controlo de Estabilidade. Como? O que sabe ela de motores? Com quem é que ela anda a falar?

A realidade agora é que, enquanto “ouve” as novelas da SIC sentada ao meu lado no sofá, a Cristina não larga o telemóvel, escondendo o ecrã e o conteúdo de mim mas  pior mesmo é ela, de vez em quando, deixar escapar alguns comentários e risinhos impercetíveis enquanto digita freneticamente no ecrã do telemóvel. Quem será a pessoa com quem ela conversa tão entusiasmada? Nunca fui ciumento mas aquele telemóvel começava a me irritar e a tirar-me do sério! Estarei eu a pagar os meus pecados do passado? Será que ela trocou-me por um mecânico de automóveis?

Um belo dia, já de cabeça perdida e roído pelos ciúmes, aproveitei o facto de ela se ter esquecido o telemóvel na sala quando foi tomar banho para vasculhar as mensagens do telemóvel. Burra! Deixou o telemóvel aberto no chat com o amante.

Perplexo, nem queria acreditar quando peguei no telemóvel e li “és muito linda Cristina”, “desculpa se errei(…)”. Filho da Puta de bajulador!

Se o gajo era todo simpatia, o que mais me irritou foram as respostas dela como “queres-me enganar?”, “julgas que sou igual às outras?” e “(…) achas que aqueles casaco vermelho com um body sexy preto ficava-me bem?”

Ainda incrédulo, percorri rapidamente o resto do ecrã da conversa, curioso para descobrir o nome do energúmeno. Chegado ao fim da conversa esbocei um sorriso quando finalmente descobri  que o nome do amante da Cristina era ChatGPT!