A Bola de Espelhos

A Bola de Espelhos
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Estávamos em 1982 e faltava apenas uma semana para o segundo teste de Análise Numérica quando um colega meu de Caldas da Rainha ligou-me convidando-me para um fim-de-semana na terra dele.

A ideia era um grupo de amigos do Técnico irem de carro até Caldas da Rainha, tomar uns copos no Green Hill, jogar King, dormir lá e voltar nas calmas no domingo, ou seja, mais um fim-de-semana igual a tantos outros. O Green Hill era, na altura, a discoteca mais famosa de Portugal frequentada por uma multidão de todo o País, rebentando pelas costuras ao fim-de-semana com mais de 1000 jovens notívagos.

Como na altura não existia ainda a A1 partimos logo depois de almoçar na Cantina. Chegados a Caldas fomos colocar as sacolas com a roupa numa habitação de um familiar, onde mais tarde iriamos pernoitar. Desde cedo iniciamos o fim-de-semana com algumas cervejas e no início da noite comemos umas bifanas numa Tasca lá da zona.

Só lá para as onze da noite ele levou-nos até o Green Hill. Para quem esperava uma discoteca de província desiludiu-se pois ainda havia uma fila de gente de algumas centenas de metros quando lá chegamos. Meia hora depois – e como ele conhecia os porteiros – lá conseguimos entrar os quatro sem pagar.

A discoteca já estava cheia e já se dançava ao som dos últimos hits dos anos oitenta por baixo de uma enorme bola de espelhos. Visivelmente entusiasmados encostámo-nos ao balcão e pedimos cerveja enquanto observávamos o ambiente e analisávamos a dimensão do espaço. Cansados de ficar em pé circundamos a pista à procura de algum sítio para se sentar ou se encostar e foi nesse trajeto que, no meio da confusão, esbarrei com uma miúda.

Do choque, do qual pedi imediatamente desculpas, resultou um diálogo simpático e para quem conhece as discotecas dos anos oitenta, o nível de decibéis era tão elevado que para ser percetível  era necessário quase gritar junto aos ouvidos um do outro. Soube assim que ela tinha 19 anos, era de Leiria e estudava medicina em Coimbra.

Estávamos a conversar há alguns minutos quando, inesperadamente, o diálogo foi subitamente interrompido por uma grande estalada de alguém que surgiu por detrás de mim. Atordoado com o impacto caí para cima da miúda que tentou segurar-me mas que caiu também. O agressor foi imediatamente rodeado pelos meus colegas e gerou-se logo uma confusão, empurrões, socos e copos pelo ar. Foram necessários uns minutos para que a segurança da discoteca interviesse e acalmasse os ânimos mas, na sequência da confusão, fomos injustamente convidados a sair.

Na rua começava a chuviscar e, revoltados por termos sido expulsos e não sermos o nexo causal da violência, decidimos sair dali. Enquanto nos dirigíamos para o carro ouvimos os gritos de uma miúda que corria na nossa direção, quando chegou perto  vi que era a miúda da discoteca  que, ainda ofegante, pediu desculpa pela agressão do amigo dela.

Surpreendido, sorri e respondi que  não sabia que ela tinha namorado, ao que ela prontamente ripostou zangada  “ele não é meu namorado! É apenas um tonto amigo do meu irmão!”. Fiz uma pequena pausa, afastei-lhe os cabelos da frente dos olhos e a sorrir sussurrei-lhe “…ainda não te apercebeste, mas aquele tonto ama-te!”. Depois de uma pequena pausa, olhou-me nos olhos e, com os olhos a brilhar, perguntou “..e tu?…”. Sorri, afaguei-lhe a face e retorqui “eu? eu nem sei o que é o amor”. Voltei-lhe as costas e afastei-me.

Entretanto um dos meus colegas colocou-me o braço em cima dos meus ombros e disse-me a rir “ela é gira! vale bem a estalada que levaste!”. Ri-me e exclamei “vamos jogar King, com a sorte com que estou hoje vou depenar vocês todos!”.

Chegados ao carro, abri a porta traseira, olhei uma última vez  para a miúda, que continuava  à chuva  no meio do Parque de Estacionamento e levantei-lhe a mão em forma de um ultimo adeus.

Fechei a porta e não sei porquê, mas enquanto o carro se afastava, lembrei-me dos últimos minutos do filme “Casablanca”.

O Green Hill fechou as portas em 2013 e a partir daí foi alvo de vandalismo e roubo