A Balança do Amor
Estava eu escarrapachado no sofá entretido no meu desporto favorito, que é o zapping pelos canais da NOS, quando ouvi a porta da garagem a abrir. Era a Cristina.
Chegou à sala com um ar estafado a arfar carregando a sua mala habitual – aquelas onde parece que cabe tudo – uma lancheira, a bolsa do ginásio, e ainda, na outra mão, uma caixa quadrada de cartão.
Como – de vez em quando – sou um cavalheiro, levantei-me para ajudá-la com aquela tralha toda. Coloquei a mala no sofá, ela jogou a bolsa para o chão e com a caixa de cartão ainda na mão chegou-se perto, beijou-me e, com o ar mais calmo do mundo, sussurrou-me ao ouvido “Despe-te! Tenho uma surpresa para ti”.
Quando se chega a uma certa idade aprende-se a não fazer perguntas indecentes e por isso, em pouco mais de 10 segundos, lá estava eu na frente dela tal como vim ao mundo.
A Cristina esboçou um sorriso, sentou-se no sofá, abriu a caixa e, antes de tirar, o que quer que fosse, levantou a cabeça, olhou-me lentamente de cima a baixo, mordeu o lábio inferior e com um sorriso exclamou “falta tirar as meias!…”
Surpreendido lá tirei as meias e lancei-as para o sofá na direção dela. Ela apanhou-as, dobrou-as lentamente e tirou o objeto misterioso da caixa.
Era uma balança!
“Uma balança???” – perguntei-lhe estupefato. Com o ar mais calmo do mundo e a sorrir ela explicou que aquilo não era balança qualquer, era uma balança de bioimpedância! Colocou a balança no chão e pediu-me para me por em cima com os pés nos dois elétrodos! Os meus conhecimentos de eletrotecnia levaram-me logo a concluir que para medir impedâncias é preciso gerar frequências por isso devia ser um equipamento para excitar qualquer coisa, ou se calhar na verdade um choque elétrico nos pés seria algo parecido com o Viagra.
A cena de estar ali de pé estático e nu em cima de uma balança na frente da Cristina era hilariante. Olhei à volta e concluí que ainda bem que as cortinas da sala estavam corridas, não fosse a tarada da vizinha – que costuma apontar a câmara de vídeo para a minha casa – ter um ataque cardíaco com a excitação da cena.
Entretanto, com o manual da balança à frente, lá ia ela comentando enquanto carregada nos botões da balança: “64 anos, 1.82m, 83.25Kg! Muito bom! Gordura corporal 18%! Muito bom! Água corporal 49%!? Está abaixo do normal! Tens de beber mais água e menos cerveja! Massa muscular 38%!? Mau! Tens de exercitar-te mais com os pesos enferrujados que estão na garagem!”
Ficamos a olhar um para o outro por uns segundos e depois desatamos os dois a rir. Ainda a rir sentei-me no sofá, abracei-a e sussurrei-lhe ao ouvido “não sei se sabes, mas o sexo aumenta a massa muscular!”