O piropo

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Há uns anos atrás, eu e a Cristina decidimos ir em outubro ao Porto Santo passar uns dias para espairecer. Para quem não conhece a ilha, no mês de outubro as águas são mais quentes e, mais importante de tudo, tem muito menos gente, que é o que nos motivava mais.

Entre alguma chuva esporádica, passávamos os dias a passear no longo areal da praia admirando o silêncio das pessoas, os sons do mar e o cheiro característico a maresia trazido pelo vento de sudoeste.

Ao entardecer voltávamos a casa sem esquecer a famosa lambeca e à noite, depois de um banho para nos livrarmos da finíssima areia, escolhíamos quase aleatoriamente um restaurante para jantar ou petiscar qualquer coisa.

Numa dessas noites, depois de escolhermos o que queríamos do menu, uma das funcionárias do restaurante aproximou-se para conhecer a nossa decisão. Enquanto dizíamos o que queríamos, apercebi-me do cheiro agradável de um perfume desconhecido para mim. Como digo sempre o que penso, enquanto lhe entregava a carta do menu perguntei-lhe que perfume é que estava a usar. Ela esboçou um sorriso simpático e respondeu que era o White Jasmine que tinha comprado na Zara do Funchal e retirou-se. Agradeci e virei-me para a mesa indo de encontro aos olhos semicerrados da Cristina.

A Cristina estava com um ar perplexo e sério, e foi ainda com faíscas a saírem-lhe dos olhos que exclamou “Que conversa de engate mais pirosa! Só faltava perguntares a que horas a que a menina saía”.

Agora quem estava perplexo era eu! O que foi que eu fiz? Mas como a conheço bem, coloquei a minha mão em cima da dela e pedi-lhe desculpa explicando-lhe que foi apenas uma pergunta instintiva sem objetivo nenhum. Ainda com um ar sério retirou-me a mão e disse “vamos jantar!”. O caldo estava entornado e em consequência disso jantamos os dois em silêncio, tomamos café, pagamos e saímos.

O tempo passou e ambos esquecemo-nos do assunto do perfume durante os dois dias de férias que faltavam antes de regressar ao Funchal.

Uns meses depois, cheguei mais tarde do trabalho, abri a porta, coloquei as chaves na consola, a Cristina levantou-se do sofá e veio me dar um beijo a sorrir.

Surpreendentemente senti o cheiro a flores no seu corpo e a sorrir perguntei-lhe “um novo perfume?”. Olhou-me nos olhos, sorriu e sussurrou-me ao ouvido “é de um perfume rasca que comprei na Zara por 16€!”

Esbocei um sorriso e disse-lhe a rir “tu não perdoas!”, ao que ela respondeu também a rir “a tua sorte é que o White Jasmine  cheira mesmo bem!”