{"id":244,"date":"2013-06-05T09:35:02","date_gmt":"2013-06-05T09:35:02","guid":{"rendered":"http:\/\/192.168.1.11\/wp\/?p=244"},"modified":"2026-05-27T21:48:56","modified_gmt":"2026-05-27T20:48:56","slug":"244","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.100nexo.com\/?p=244","title":{"rendered":"Paix\u00e3o sem nexo"},"content":{"rendered":"<div class=\"pld-like-dislike-wrap pld-template-2\">\r\n    <div class=\"pld-like-wrap  pld-common-wrap\">\r\n    <a href=\"javascript:void(0)\" class=\"pld-like-trigger pld-like-dislike-trigger  \" title=\"Clique aqui se gostou do texto...\" data-post-id=\"244\" data-trigger-type=\"like\" data-restriction=\"ip\" data-already-liked=\"0\">\r\n                        <i class=\"fas fa-heart\"><\/i>\r\n                <\/a>\r\n    <span class=\"pld-like-count-wrap pld-count-wrap\">237    <\/span>\r\n<\/div><div class=\"pld-dislike-wrap  pld-common-wrap\">\r\n    <a href=\"javascript:void(0)\" class=\"pld-dislike-trigger pld-like-dislike-trigger  \" title=\"Clique aqui se n\u00e3o gostou do texto...\" data-post-id=\"244\" data-trigger-type=\"dislike\" data-restriction=\"ip\" data-already-liked=\"0\">\r\n                        <i class=\"fa fa-heartbeat\"><\/i>\r\n                <\/a>\r\n    <span class=\"pld-dislike-count-wrap pld-count-wrap\">4<\/span>\r\n<\/div><\/div><p>No in\u00edcio do nosso casamento a Cristina ia sempre jantar com um grupo de amigas a que elas chamavam de <em>\u201cjantar das nabas\u201d<\/em>. Eu aproveitava o evento e ia tamb\u00e9m jantar com os meus amigos, mas combin\u00e1vamos sempre encontrarmo-nos os dois em casa por volta da meia-noite.<\/p>\n<p>Eu e os meus amigos jant\u00e1vamos quase sempre arroz de marisco num pequeno restaurante que havia na Praia do Vig\u00e1rio. Os jantares eram sempre morosos e bem regados e por isso j\u00e1 passava das 22 horas quando, no regresso a casa, parei o carro em frente a uma tasca, que ficava apenas a uns cem metros do apartamento onde viv\u00edamos em C\u00e2mara de Lobos.<\/p>\n<p>Estava a tentar deixar de fumar, mas os efeitos dos vapores do \u00e1lcool eram mais fortes que a minha vontade e por isso entrei para comprar cigarrilhas. A tasca n\u00e3o era bem frequentada e as hist\u00f3rias de tr\u00e1fego de droga e as pancadarias faziam parte do dia-a-dia. Na altura, eu pertencia \u00e0 Cooperativa de Habita\u00e7\u00e3o CooLobos e por isso, de algum modo, era mais ou menos conhecido na zona. Assim o risco de entrar num antro daqueles e apanhar um enxerto de porrada era diminuto.<\/p>\n<p>Aproximei-me do balc\u00e3o, apontei para uma caixa de cigarrilhas e pedi uma. O Bar estava vazio mas notei que ao fundo, a tentar segurar o balc\u00e3o, estava um homem com uns 30 anos, barba por fazer e com um copo de vinho na m\u00e3o. O Dinarte \u2013 era assim que ele se chamava &#8211; olhou fixamente para mim, meteu conversa e ordenou que me servissem um \u201c<em>vinhinho<\/em>\u201d. Como sabia\u00a0 que n\u00e3o se deve nunca contrariar os doidos e os b\u00eabados, mas como o vinho <em>Jacquet<\/em> fazia-me azia, pedi-lhe para trocar por uma <em>Coral<\/em>. Adorava ouvir as hist\u00f3rias de pescadores e &#8211; como era ainda cedo &#8211; pedi mais uma cerveja e um vinho, e foi de copo em copo, que a conversa encaminhou-se da pesca, para o futebol, e depois para o sexo.<\/p>\n<p>E foi assim que soube que o Dinarte tinha casado h\u00e1 quase dois anos com a Lurdes, que tinha j\u00e1 um filho pequenino e que a Lurdes j\u00e1 estava gr\u00e1vida outra vez. Cambaleando com o bafo em cima de mim, o Dinarte jurava que para um casamento resultar t\u00ednhamos de dar \u201c<em>uma de manh\u00e3<\/em>&#8221; e \u201c<em>outra \u00e0 noite<\/em>&#8221; porque o \u201c<em>leite<\/em>\u201d era um calmante para elas. Em poucos minutos eu tinha ouvido a maior barbaridade da minha vida sobre o sexo, mas ri-me perdidamente. Na verdade eu era c\u00famplice daquilo tudo, mas as hist\u00f3rias dele divertiam-me &#8211; e foi ainda a rir &#8211; que um grito fez-me olhar para a porta onde estava uma mulher.<\/p>\n<p>Era a Lurdes, que rompeu pela tasca dentro aos gritos. Era linda de morrer, cabelos negros, com uns olhos azuis e uma boca de fazer babar qualquer ser humano. Ela era bonita, trazia com ela uma barriga empinada de gr\u00e1vida\u00a0 \u00a0e ao colo um mi\u00fado lourinho, rameloso com o\u00a0 nariz todo sujo de ranho.<\/p>\n<p>Era uma vis\u00e3o simultaneamente bela e repugnante. A primeira coisa que me veio \u00e0 cabe\u00e7a foi como \u00e9 que uma mulher daquelas se tinha apaixonado, amado, casado e at\u00e9 ter tido filhos com aquele traste. Ser\u00e1 que \u00e9 mesmo verdade que a paix\u00e3o n\u00e3o tem qualquer nexo?<\/p>\n<p>Armou-se logo confus\u00e3o &#8211; e sem largar o mi\u00fado &#8211;\u00a0 come\u00e7ou a bater no Dinarte enquanto gritava que ele era um &#8220;<em>b\u00eabado<\/em>&#8221; e um \u201c<em>paneleiro<\/em>\u201d\u00a0 que nem lhe dava dinheiro para dar de comer ao filho. Parecia um filme! Enquanto apanhava forte e feio, o Dinarte chorava e protegia-se como podia e foi j\u00e1 em esfor\u00e7o que eu e o dono do Bar conseguimos separ\u00e1-los.<\/p>\n<p>J\u00e1 passava da meia-noite quando a confus\u00e3o acalmou. O Dinarte saiu na frente como um c\u00e3o escorra\u00e7ado. Ela parou na porta, voltou-se e lan\u00e7ou-me um \u00faltimo olhar, como se eu tamb\u00e9m fosse culpado de alguma coisa.<\/p>\n<p>Perdi a vontade de rir, paguei o que havia a pagar e sa\u00ed da tasca.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora chuviscava e o vento soprava forte de sudoeste. As tempestades de sudoeste eram frequentes no m\u00eas de Dezembro e traziam o delicioso cheiro a mar, que eu sempre adorei. Parei uns segundos, acendi outra cigarrilha, fechei o casaco e dirigi-me para casa pensando na vida e na mulher fabulosa que eu tinha.<\/p>\n<p>Havia luz no apartamento e a Cristina j\u00e1 l\u00e1 estava. Beijei-a, abracei-a, falamos dos jantares, mas n\u00e3o lhe contei a hist\u00f3ria do Dinarte e da Lurdes.<\/p>\n<p>Nunca mais os vi, mas anos mais tarde, fiquei a saber que o Dinarte tinha morrido de cirrose e que\u00a0 o esperma tem qu\u00edmicos como a\u00a0 serotonina, melatonina e oxitocina, que funcionam como antidepressivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>237 4 No in\u00edcio do nosso casamento a Cristina ia sempre jantar com um grupo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4351,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[12,11],"class_list":["post-244","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-confissoes","tag-amor","tag-casamento"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/244","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=244"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/244\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4353,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/244\/revisions\/4353"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4351"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=244"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=244"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.100nexo.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=244"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}